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O velho (a)normal

Foto do escritor: Natália Balancin
Natália Balancin
16 de dez. de 2021
3 min de leitura

Nas últimas semanas, as demandas de cada um vem pesando um pouco mais a cada vivência. Dezembro, como dizem. Vez ou outra, escuto da mais jovem a mais experiente “queria ser normal com tudo isso”.

Imagem: shalizeh7 (tumblr)

Ao que questiono: o que é ser normal? De uma delas, recebi o retorno: assim, sabendo lidar com as emoções, meio como você. Eu dei muita risada naquela sessão. Foi na mesma semana que disse ao meu próprio analista: “cada dia mais eu entendo porque os precursores da psicanálise usavam drogas”. Assim como para aprender a caminhar, tivemos que engatinhar; é assim com as emoções. Para aprender a sustentá-las, a gente precisa atravessá-las. Tem um oceano de coisas que não sabemos sobre quem a gente se compara quando falamos do falacioso controle emocional.


A gente se ilude que pode controlar algo nessa vida, quando na verdade o que fazemos ao longo das nossas vivências é aprender a interpretar nossas emoções e a partir disso escolher como agir. As emoções acontecem em um nível neurobiológico que nosso sistema nervoso controla em incríveis camadas conectadas. A gente precisa do cortisol à serotonina que nosso organismo produz e provoca todas as reações em nosso corpo que muitas vezes não sabemos lidar. A nossa psique se acostuma com um padrão que nos conforta e molda ao longo dos anos, por isso é tão desconfortável, estranho e confuso começar a agir e pensar fora dele. Claro que quando uso o verbo “confortar” é metalinguagem e sei que alguns desses padrões, estão bem longe do que uma ideia materialista e capitalista de conforto pode nos dizer.


Na fantasia de que algo pode ser plenamente controlado que habitam nossas neuroses. Todos temos uma pra chamar de nossa e é psiquicamente saudável que a tenhamos. O que nos diferencia é o nível que estamos afundados nela e deixamos que guie nossas vidas, ações, paixões e decisões. Usualmente, nossos relacionamentos amorosos são um “match” de neuroses. Mas isso de loucuras de amor, fica para outro texto. O objetivo aqui é refletir sobre a fantasia de que a normalidade possa existir além do plano da ética e respeito de uma convivência saudável em sociedade.


Como bem observou o pai da psicanálise: “É impossível enfrentar a realidade o tempo todo, sem nenhum mecanismo de fuga.”. E assim, se perpetua o ciclo de fantasia e vícios que acometem o indivíduo. Quando nossa capacidade imaginativa foi tão destroçada e mitigada, nos sobra um mecanismo de fuga diferente: comida; álcool; drogas; sexo…todo excesso esconde uma falta. Para não olhar essa falta, a gente se esconde atrás de uma compulsão que nos arrasta. A realidade como ela é, convenhamos que não é nada fácil de ser encarada. Por isso mesmo, Perseu precisou de um espelho para que pudesse observar Medusa se aproximando dele sem ser petrificado com um olhar direto. É isso que nossas verdades nuas e cruas fazem, nos petrifica quando não há um preparo e abordagem adequados para lidar com elas. Por isso, nosso inconsciente recorre ao que chamamos de projeção.


A todo momento e todo dia, projetamos algo. O gesto de um relacionamento atual que faz lembrar o/a ex e assusta. O supervisor que mais grita e pouco faz e lembra nossa infância com pai autoritário. A estranha que cruzou a rua e sorriu e acenou no ângulo exato que nossa mãe costumava fazer. Transferência e contratransferência são premissas para um bom processo psicanalítico. Não significa que são produtos fáceis, porque o fazemos sem perceber. O desafio é nos deixar levar e conduzir até o ponto de que consigamos dizer basta. Um basta para aquela atitude ou hábito que claramente nos prejudica em algo que nos é precioso mas que cresce feito mofo e nos custa a mudar.


Porque ser “normal” é relativo e particular a cada sujeito. O normal pode ser louco à sua própria maneira e ser a coisa mais subversiva aos olhos de quem ensinou ou criou o diferente. Tudo isso que a gente faz em análise de recordar, elaborar e perlaborar é o trabalho de aprender a sustentar as nossas contravenções diante de um padrão de normalidade que nunca será atingível. A gente faz o nosso próprio padrão e se diverte e afeta em um mundo que nos desafia a realização do sujeito pelo tanto que o outro nos atravessa.


Particularmente, ao falar de normalidade eu concordo com Nise da Silveira ao afirmar:

“Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura. Vou lhes fazer um pedido: Vivam a imaginação, pois ela é a nossa realidade mais profunda. Felizmente, eu nunca convivi com pessoas ajuizadas. É necessário se espantar, se indignar e se contagiar, só assim é possível mudar a realidade…”.


A normalidade só existe de longe porque é estranha. Nosso olho do furacão é exatamente o ponto que vai nos levar de um momento de felicidade a outro.


Texto: Natália Balancin

Psicanalista e bailarina




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